terça-feira, 25 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
Charges sexistas
Encontramos frequentemente assuntos controversos abordados através do humor.
Segundo Bergson, "toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo, será, pois, suspeita à sociedade (...) Ela está diante de algo que a inquieta, mas a título de sintomas apenas - simplesmente ameaça, no máximo um gesto. E, portanto, por um simples gesto ela reagirá. O riso deve ser algo desse gênero: uma espécie de gesto social.
O riso tem o poder de chacoalhar os ossos, fazer a energia circular, quebrar a rigidez física e mental. Mas o riso também pode ser fácil, nascido daquele humor gasto, afeiçoado a estereótipos.
Uma charge, "riqueza pobre", chamou minha atenção pelos seus inúmeros compartilhamentos no facebook. O autor ridicularizou o preconceito absurdo contra os nordestinos quando da vitória de Dilma. Um tema bastante apropriado para o humor e para o riso bergsoniano. Porém, para ridicularizar essa situação, o chargista encarnou o preconceito na figura da mulher, da mulher loira, da mulher loira e bonita, da mulher loira, bonita e esposa aproveitadora. E se é mulher e loira, claro, é burra. E seu contraponto? O homem, esposo trabalhador e detentor do bom senso.
Por que ridicularizar um preconceito valendo-se de outro? Teria sido um lapso infeliz do autor? Não. Basta assistir "porque os tempos mudaram" e ver a encarnação da falta de noção na mulher, na mulher loira e, naturalmente, burra. A sabedoria? Novamente na figura masculina.
Os tempos realmente mudaram?
Riqueza pobre
http://charges.uol.com.br/2014/10/31/cotidiano-riqueza-pobre/
Porque os tempos mudaram...
http://charges.uol.com.br/2014/09/24/porque-os-tempos-mudam/
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Prisão
Nesta
cidade
quatro
mulheres estão no cárcere.
Apenas
quatro.
Uma
na cela que dá para o rio,
outra
na cela que dá para o monte,
outra
na cela que dá para a igreja
e
a última na do cemitério
ali
embaixo.
Apenas
quatro.
Quarenta
mulheres noutra cidade,
quarenta,
ao menos,
estão
no cárcere.
Dez
voltadas para as espumas,
dez
para a lua movediça,
dez
para pedras sem resposta,
dez
para espelhos enganosos.
Em
celas de ar, de água, de vidro
estão
presas quarenta mulheres,
quarenta
ao menos, naquela cidade.
Quatrocentas
mulheres,
quatrocentas,
digo, estão presas:
cem
por ódio, cem por amor,
cem
por orgulho, cem por desprezo
em
celas de ferro, em celas de fogo,
em
celas sem ferro nem fogo, somente
de
dor e silêncio,
quatrocentas
mulheres, numa outra cidade,
quatrocentas,
digo, estão presas.
Quatro
mil mulheres, no cárcere,
e
quatro milhões – e já nem sei a conta,
em
lugares que ninguém sabe,
estão
presas, estão para sempre
– sem
janela e sem esperança,
umas
voltadas para o presente,
outras
para o passado, e as outras
para
o futuro, e o resto – o resto,
sem
futuro, passado ou presente,
presas
em prisão giratória,
presas
em delírio, na sombra,
presas
por outros e por si mesmas,
tão
presas que ninguém as solta,
e
nem o rubro galo do sol
nem
a andorinha azul da lua
podem
levar qualquer recado
à
prisão por onde as mulheres
se
convertem em sal e muro.
Cecília Meireles
Pílulas 4
"O corpo, este volume concreto, não tem nada de natural - em rigor, não existe 'corpo natural', espontâneo e livre, 'pura potência', anterior a qualquer trabalho da cultura - ele ´sempre resultado de investimentos de poder e de enunciações por saberes: sua própria 'natureza ' é construída." (PRADO FILHO; TRISOTTO, 2008, p. 116).
Para Foucault (2008a), o poder se exerce nas ações cotidianas, e é no cotidiano do corpo que ele estará presente... O corpo só é útil na medida em que é produtivo e dócil, passível de transformação e aperfeiçoamento...
"A normalização disciplinar consiste em primeiro colocar um modelo, um modelo ótimo que é construído em função de certo resultado, e a operação de normalização disciplinar consiste em procurar tornas as pessoas, os gestos, os atos, conformes a esse modelo, sendo normal precisamente quem é capaz de se conformar a essa norma e o anormal quem não é capaz. Em outros termos, o que é fundamental e primeiro na normalização disciplinar não é o normal e o anormal, é a norma. Dito de outro modo, há um caráter primitivamente prescritivo da norma, e é em relação a essa norma estabelecida que a determinação e a identificação do normal e do anormal se tornam possíveis. Essa característica primeira da norma em relação ao normal, o fato de que a normalização disciplinar vá da norma à demarcação final do normal e do anormal, é por causa disso que eu preferiria dizer, a propósito do que acontece nas técnicas disciplinares, que se trata muito mais de uma normação do que de uma normalização." (FOUCAULT, 2008b, p. 74-75).
"...diferentes distribuições de normalidade funcionarem umas em relação às outras e fazer de sorte que as mais desfavoráveis sejam trazidas às que são mais favoráveis. Temos portanto aqui uma coisa que parte do normal e que se serve de certas distribuições consideradas, digamos assim, mais normais que as outras, mais favoráveis em todo caso que as outras. São essas distribuições que vão servir de norma. A norma está em jogo no interior das normalidades diferenciadas. O normal é o que é primeiro, e a norma se deduz dele, ou é a partir desse estudo das normalidades que a norma se fixa e desempenha seu papel operatório. Logo, eu diria que não se trata mais de uma normação, mas sim, no sentido estrito, de uma normalização." (FOUCAULT, 2008b, p. 82-83).
Para Foucault (2008a), o poder se exerce nas ações cotidianas, e é no cotidiano do corpo que ele estará presente... O corpo só é útil na medida em que é produtivo e dócil, passível de transformação e aperfeiçoamento...
"A normalização disciplinar consiste em primeiro colocar um modelo, um modelo ótimo que é construído em função de certo resultado, e a operação de normalização disciplinar consiste em procurar tornas as pessoas, os gestos, os atos, conformes a esse modelo, sendo normal precisamente quem é capaz de se conformar a essa norma e o anormal quem não é capaz. Em outros termos, o que é fundamental e primeiro na normalização disciplinar não é o normal e o anormal, é a norma. Dito de outro modo, há um caráter primitivamente prescritivo da norma, e é em relação a essa norma estabelecida que a determinação e a identificação do normal e do anormal se tornam possíveis. Essa característica primeira da norma em relação ao normal, o fato de que a normalização disciplinar vá da norma à demarcação final do normal e do anormal, é por causa disso que eu preferiria dizer, a propósito do que acontece nas técnicas disciplinares, que se trata muito mais de uma normação do que de uma normalização." (FOUCAULT, 2008b, p. 74-75).
"...diferentes distribuições de normalidade funcionarem umas em relação às outras e fazer de sorte que as mais desfavoráveis sejam trazidas às que são mais favoráveis. Temos portanto aqui uma coisa que parte do normal e que se serve de certas distribuições consideradas, digamos assim, mais normais que as outras, mais favoráveis em todo caso que as outras. São essas distribuições que vão servir de norma. A norma está em jogo no interior das normalidades diferenciadas. O normal é o que é primeiro, e a norma se deduz dele, ou é a partir desse estudo das normalidades que a norma se fixa e desempenha seu papel operatório. Logo, eu diria que não se trata mais de uma normação, mas sim, no sentido estrito, de uma normalização." (FOUCAULT, 2008b, p. 82-83).
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Pílulas 3
A relação entre identidade (uma convenção social) e o corpo do indivíduo é que esse eu não é uma mera projeção, mas ele é encarnado e se configura como um espaço simbólico na formação das identidades (GIDDENS, 2002).
"Num mundo marcado pela desterritorialização, o corpo desponta como espaço limite de vivência (ou até mesmo de sobrevivência) do exercício da territorialidade". (CASTRO; BUENO, 2005, p. 9). Ele é, então, território da cultura (uma vez que se configura como suporte para a cultura das sociedades) e da identidade (CASTRO; BUENO, 2005; GUIMARÃES, 2005).
"Num mundo marcado pela desterritorialização, o corpo desponta como espaço limite de vivência (ou até mesmo de sobrevivência) do exercício da territorialidade". (CASTRO; BUENO, 2005, p. 9). Ele é, então, território da cultura (uma vez que se configura como suporte para a cultura das sociedades) e da identidade (CASTRO; BUENO, 2005; GUIMARÃES, 2005).
domingo, 9 de novembro de 2014
Noções
Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...
Cecília Meireles
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Pílulas 2
Mesmo nas identidades mais sólidas há o ocultamento de "negociações de sentido" sendo estas, por isso, identificações em curso. Essas identificações partem de quem pergunta sobre a identidade, e quem pergunta sobre ela parte de referências hegemônicas e, ao mesmo tempo, de alteridade. Por este fato, é necessário "conhecer quem pergunta sobre a identidade, em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados" (SOUSA SANTOS, 2001, p. 135).
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